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Análise do Oráculo de Emanuel Is 7-12

  Emanuel, Sinal de Salvação

Do livro de Isaias (Is 7-12)

O contexto:

Os últimos anos do Reino do Norte no final do século VIII, com o reinado de Jeroboão II, são marcados por um período de florescimento e crescimento. Neste período, Israel vive um momento grande de prosperidade, com um cenário político internacional favorável. A Assíria com a sua política agressiva de expansão, pressiona fortemente Damasco pelo pagamento de tributos. Durante este breve período de tempo, Israel vê-se livre da opressão de Damasco e paga tributos aos assírios. Entretanto a Assíria contou com um novo rei, Tiglat-Pileser III, que tinha uma prespetiva de expansão muito mais agressiva e efetiva. Além de pagamentos de Tributos, Tiglat-Pileser III queria estabelecer o reino da Assíria através da submissão, conquista, deportação e transformação dos reinos vizinhos em províncias assírias.Com esta nova mudança no cenário político internacional, o período de relativa paz em Israel encontra-se ameaçado. Com a morte de Jeroboão II, o Reino do Norte é fustigado pela violência e pelas mudanças constantes em torno do trono de Israel. A sucessão de assassinatos como fruto de conspirações assinala profundamente estes últimos anos, sob os reis Zacarias, Selum, Manaém, Faceias, Faceia e Oséias, que marcam a rapidez de sucessão do Reino do Norte, em que a sua instabilidade, são reflexos do poder Assírio que, após submeter Damasco, torna-se uma ameaça ao reino próspero e rico de Israel. Isto pode ter contribuído para que os israelitas se dividissem em partidos pró-assírio e anti- assírio. Como prova disto é a guerra siro-efraimita (734-732), que se deveu a uma união entre Damasco e Israel para convencer Judá a formar um acordo anti-assíria. Mas a recusa de Judá e a solicitação da intervenção do poder da Assíria pôs fim a esse acordo, dando-se o início ao processo de desintegração do Reino do Norte através de deportações e levou à sua anexação definitiva como província assíria em 722-721.A interpretação do texto bíblico numa perspetiva teológica e Deuteronomista, encontra o ponto alto de todo e causa da ruína de Israel. De fato, é a partir deste dado que o texto bíblico explicita os motivos determinantes que levaram o Reino do Norte ao fim e como aviso a Judá não venha a cair no mesmo caminho e perca sua herança.

O texto:

a) Encontro com Acaz (Is 7,1- 9) Isaías, como profeta do Reino do sul, e fiel à sua vocação (Is 6,11) consciente da infidelidade e obstinação do rei Acaz, apresenta-se, junto do aqueduto de Guijon (Is 7,3) perante a  corte para transmitir a confiança que este rei pode depositar em Yahvé, que o defenderá das investidas, de Recin, rei da Assíria e de Peçá rei de Jerusalém. Que lhe peça um sinal (Is 7,11). No entanto este rei não se encontra disposto a tal e a mudar a sua política de associação com a Assíria, renunciando ao sinal dado por Yahvé, embora tente mostrar, com falácia, que não dúvida do Senhor. No entanto e apesar de tudo, o sinal será dado (Is 7,14). O ataque da Síria (Aram) e Israel (Efraim) sobre Judá, assim chamada guerra sírio-efraimita, como foi já referido, era uma tentativa de forçá-lo a entrar no acordo anti-Assíria[1]. Acaz resolveu sua dificuldade, embora contra o encorajamento de Isaías, submetendo-se como vassalo da Assíria, cujo rei, Teglat-Falasar III, acabou por investir contra a Síria e Israel (2Rs 16,7-9). No texto de Is 7,2, o autor fala da Casa de David, «Chegou a noticia ao herdeiro de David» evidenciando que o rei Acaz, é a corrente personificação da dinastia davídica e repositório das promessas de Yahvé (2Sm 7). O texto hebraico diz; וֹבְּבֵית֑"acampado em", o que significa, uma aliança entre Síria e Israel, que far-se-ia todavia, como prova da fraqueza, deslealdade e infidelidade para com Yahvé, que “fala” ao coração do seu povo e do seu rei Acaz, através do Seu Espirito ah,חַוּוְר֣que os alimenta, aqui representada pela árvore, símbolo e expressão de vida, que se renova continuamente, pela presença de Deus. Um povo chamado e escolhido mas de coração transviado e obstinado (Hb 3,7-14; Sl 95,10).O texto contínua, com o convite de Yahvé, ao pequeno “rebanho” ainda fiel, Chear-Yachub, literalmente “o resto há-de voltar” , i.e, voltar a converter-se. A restante perícope denota a preocupação do rei Acaz, ao inspecionar o suprimento de água, fato importante durante o cerco a que foi sujeito (a água era trazida da nascente de Silo para piscina superior, Is 8,6;22,9-11); A Palavra de Yahvé, continua dirigida ao rei Acaz para que não se renda, nem se submeta aos Assírios. Como reforço do versículo anterior, a expressão "não tenhas medo" vem da tradição da guerra santa de Yhavé (Dt 20,3-4) que prepara o seu povo na batalha contra os seus inimigos e que lhes oferece a vitória; neste ponto, Isaías também pensa no lugar especial da dinastia Davídica e em Jerusalém no plano de Deus. Por outro lado a expressão “tal não acontecerá nem se realizará” (Is 7,7), expressa que, o estratagema Síria-Israel é apenas conselho humano e que não irá resultar, enquanto a vontade de Yahvé será cumprida (Is 8, 9-10).

[1]Para muitos autores, Is 7,1 obteve grande influência do segundo Livro dos Reis 2Re, 16, 9.

b) O texto - O sinal de Emanuel (Is 7,10-17).Esta perícope inicia-se com o encontro com o rei Acaz, que vacilará, o seu coração. Mas influenciado em sentido contrário pelos seus conselheiros, mantem a sua posição. Nesta circunstância Yahvé, através do profeta Isaías oferece um sinal, embora não necessariamente miraculoso, como em outras ocasiões que se evidenciam mais expressivas (Is 37,30)[1].Contudo este sinal, parece ser algo que fará, o rei Acaz, lembrar e relacionar os acontecimentos decorrentes no relato, com um futuro próximo; a invasão Assíria e a perda da independência. A recusa do rei Acaz provavelmente indica que o seu coração se encontra fechado (Is7,12). No entanto Yahvé mantem a Sua promessa ao dar um sinal, que será o nascimento, possivelmente do filho do rei Acaz, pois este era jovem, como se poderá entender do hebraico “que se tornará pai”,= השָׁנָšā·nāh (2Re 16,2) e ao casar-se com sua futura esposa, “a jovem grávida e vai dar à luz um filho”= עלמה-almah,(Is 7,14)de onde nascerá Ezequias, o Emanuel. De fato, a palavra עלמהalmah´), vem de םלע (‘elem), que significa “esconder”, “ocultar”, pois as jovens eram mantidas cobertas, escondidas aos olhos dos homens e portanto, jovens solteiras, que não conheceram, ainda homem, Lc (1,34); (Mt 2, 22) expressão característica da cultura bíblica. De notar que os evangelistas, Mateus e Lucas, bem como posteriormente os Padres apostólicos ou Padres da Igreja, entre eles Stº Agostinho no Sermão CLXXXVI 1,1 "Virgem que concebe, virgem que dá à luz, virgem grávida, virgem que traz o feto, Virgem perpétua" e ainda no Sermão sobre a Ressurreição de Cristo, segundo São Marcos, PL XXXVIII, 1104-1107;“Concebeu-O [a Cristo Jesus] sem concupiscência, uma Virgem; como Virgem deu-lhe à luz, Virgem permaneceu”, interpretam os acontecimentos, colocando em Jesus a realização dos desígnios de Deus, que no texto de Is 7,14 encontra-se sob o nome de Ezequias, criança prometida que irá garantir a futura dinastia (da "a casa de David"; Is.7,2;13) e por esta razão pode ser chamado de Emanuel ("Deus connosco"), que irá «rejeitar o mal e escolher o bem» (Is 7,15) e fazer dele a antítese de Acaz[2] .

 [1]Nesta perícope, o rei Acaz está para pedir confirmação da promessa do profeta.

 [2]O conhecimento do bem e do mal no AT significa discernimento adulto e supõem uma idade madura.

Como reforço do que se referiu anteriormente, mais tarde a Bíblia dos LXX, ou Septuaginta, traduzida entre o século III a.C. e o século I a.C em Alexandria, interpretou a palavra המלע (do hebraico: “almah”) por παρθενος (do grego: parthenos) que significa literalmente “virgem”.